Release
Samba Paulista:
Em novo CD, Emerson Urso faz resgates não nostálgicos
Lu Tomé*
Um retrato de perfil. O homem – em seu semi-sorriso carregado de significados – fixa o olhar reflexivo frente-a-baixo, como quem olha para as experiências de si mesmo. A gola branca e partes do chapéu-panamá completam uma imagem de sambista. É a imagem de Emerson Urso, que ilustra a capa de seu segundo álbum, intitulado Sambista e Compositor. Mas que poderia sem ressalvas se chamar resgates.
Explico. A começar pelo resgate que o afilhado paulista de Mestre Monarco faz das vertentes do samba, compondo faixas que vão do samba rural ao de terreiro, do samba de roda ao tradicional, passando por versões de samba dolente, samba-canção e a imperdível faixa de partido alto calangueado.
Mas, sobretudo, é nas mensagens implícitas nas letras que o sambista opera um resgate (não nostálgico) dos modos de ser do brasileiro. Não nostálgico? Sim. Nostalgia é chorar pelo passado derramado, de improvável reviver. E no álbum, Urso não vela histórias-defuntas nem as lamenta. Ao contrário, traz à tona sensações que permanecem em nós, mesmo que sob a anestesia metropolitana.
Exemplos. Quem escutar a deliciosa faixa 2 – Tem de Tudo pra Vender – terá dificuldades em encontrar nas metrópoles um armazém à moda antiga, em que Severino Pernambucano venda “fava, mel, tartaruga, bode assado e pimentão / Culhão de boi, cebola, alho, jabá e requeijão / Gaiola pra passarinho, querosene e lampião”. Mas, imediatamente, o ouvinte resgatará em si mesmo sensações de generosidade, abundância e informalidade, existentes e próprias da constituição do sujeito brasileiro. E outras sensações resgatáveis, como a sensualidade faceira da mulher brasileira (faixa 3 - A vegetariana); os modos românticos de agir (faixas 5, 6, 7 e 10); o contato roceiro com a natureza (faixa 1); a reverência aos mestres, como na homenagem a Alberto Lonato da Portela, com participação especial de Monarco (faixa 13). E não há quem possa passar pela avenida Paulista sem sentir a poesia de seu Ar Pueril (faixa 8). Nostalgia? Atualíssimo.
O CD é, enfim, o resgate possível de um certo tipo de olhar. Do olhar generoso do brasileiro, ora ingênuo, ora malicioso, expressado em letras bastante simplórias, em poemas de menino. Do mesmo menino que começou a compor aos quatorze anos. Que coloriu sua meninice com experiências adultas. E que não desbotou. Ouçam o menino Urso.
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* Lu Tomé é poeta, psicólogo e compositor paulistano.
Influências
ROBERTO RIBEIRO, CLARA NUNES, JOÃO NOGUEIRA, DELCIO CARVALHO, CHICO BUARQUE, ZECA PAGODINHO, ALMIR GUINETO, BETO SEM BRAÇO, CARTOLA E PAULINHODA VIOLA.